quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

A importância do apoio multidisciplinar para o paciente oncológico

 


Uma equipe multidisciplinar com foco no resultado terapêutico e na qualidade de vida é condição indispensável para o sucesso do tratamento do paciente com câncer. O acompanhamento desses profissionais (nutricionista, psicólogo, fisioterapeuta, fonoaudiólogo, educador físico etc.) deve ser muito bem detalhado durante e após o tratamento oncológico. 

As cirurgias e a terapia antineoplásica, que consiste no tratamento que utiliza fármacos no organismo dos pacientes a fim de combater as células cancerosas, podem levar a efeitos adversos e sequelas que vão necessitar a intervenção desses profissionais.

A seguir, descreveremos com mais detalhes cada uma dessas áreas e seus benefícios na oncologia. Confira:

Por que devo procurar um nutricionista durante o tratamento do câncer?

Pacientes com diagnóstico de câncer estão suscetíveis a desenvolver problemas alimentares, como anorexia, decorrente de alterações metabólicas ou anatômicas, bem como hipotalâmicas nos casos de tumores cerebrais. Além disso, os tratamentos antitumorais podem ser agressivos o bastante para provocarem distúrbios gastrintestinais que vão desde náuseas e vômitos até a destruição das mucosas oral, esofágica e intestinal (tecido que protege esses órgãos). 

Portanto, os pacientes oncológicos são suscetíveis à desnutrição e a um quadro chamado de caquexia, onde há perda grave de gordura e proteína muscular por intenso catabolismo corporal. Isso aumenta o risco de complicações gerais e infecciosas e eleva a morbimortalidade, com redução importante na qualidade de vida. 

Estudos indicam que a desnutrição está presente em cerca de 75% dos pacientes oncológicos. Pacientes desnutridos têm maior risco de septicemia, formação de abscesso e dificuldades de cicatrização no período pós-operatório. Esses fatores contribuem para a redução da capacidade funcional e para menores taxas de sobrevida. Todos esses efeitos poderão ser minimizados pelo cuidado prestado pelo nutricionista especialista em Oncologia.

Nesses casos, o diagnóstico do perfil nutricional é complexo, pois o nutricionista o realiza por diferentes métodos (clínico, de composição corporal, bioquímicos e metabólicos), analisados conjuntamente, a fim de aumentarem a especificidade e a sensibilidade da avaliação de risco nutricional e garantirem uma intervenção nutricional mais precisa. 

Qual a importância da combinação da nutrição com o exercício físico durante o tratamento oncológico?

Várias evidências científicas apontam para a necessidade do educador físico como membro da equipe multidisciplinar para esse tipo de tratamento. As pesquisas demonstram vários benefícios da inclusão de uma atividade física direcionada ao paciente com câncer, quer seja durante o tratamento com quimio ou radioterapia, quer seja na preparação cirúrgica ou na reabilitação pós-operatória. 

A sarcopenia, perda de massa e força muscular e capacidade funcional, é um dos principais problemas do paciente oncológico, e está associada a maiores taxas de complicações cirúrgicas, internações e infecções, maior tempo de hospitalização, menor taxa de sobrevida e redução da qualidade de vida. 

Nesse contexto, a intervenção do educador físico torna-se essencial para que o trabalho da terapia nutricional obtenha resultados de maior sucesso, considerando que a síntese proteica muscular adequada é necessária para melhorar as funções citadas, o que necessita da combinação dos componentes nutricionais com o exercício físico adaptado. 

Como lidar com outras sequelas durante o tratamento?

Diversos cânceres cursam com dificuldades neuromusculares, musculoesqueléticas, cardiopulmonares, possibilitando muitos prejuízos funcionais. 

Além disso, sequelas funcionais, motoras e respiratórias podem ocorrer devido a alguns tipos de cirurgias e tratamentos oncológicos ou pelas complicações dessas terapêuticas. Nesse contexto, tanto a fisioterapia motora quanto a respiratória ou a de controle de dor podem intervir para prevenir ou reduzir os danos, bem como melhorar a qualidade de vida e o prognóstico do paciente.

A fisioterapia pode auxiliar na melhoria da qualidade de vida do paciente oncológico por meio da realização de alongamentos, terapia manual, fortalecimento muscular, eletroterapia, cinesioterapia, termoterapia e crioterapia. 

Considerando a dor uma manifestação frequente, a equipe fisioterápica é capaz de amenizá-la por meio de alguns recursos como, estimulação elétrica nervosa transcutânea (TENS), crioterapia, termoterapia, massagem terapêutica e cinesioterapia, reconstituindo dessa forma o bem-estar do paciente.

Quais resultados a fisioterapia pode proporcionar no pós-operatório?

Algo entre 15 e 20% dos pacientes com diagnóstico de câncer de pulmão são candidatos à cirurgia, dependendo do tipo e do estadiamento pré-operatório dos tumores malignos. Porém, é necessário avaliar o risco cirúrgico, que é influenciado por diversos fatores, tais como idade, comorbidades e função cardiopulmonar. 

A fisioterapia tem sido amplamente utilizada no pré-operatório e/ou pós-operatório para evitar complicações cirúrgicas e melhorar a recuperação desses pacientes nesse contexto.

Quando se fala em cirurgia, a fraqueza dos músculos respiratórios é um prejuízo bastante sério, como ocorre na cirurgia abdominal superior, cardíaca ou pulmonar, devido a lesão muscular, depressão do sistema nervoso central e dor. 

A fraqueza dos músculos respiratórios pode resultar na incapacidade de tossir, além da redução da complacência pulmonar e dispneia (falta de ar) associada à imobilização pós-operatória, que por sua vez induz à fraqueza muscular generalizada. 

Para evitar a ocorrência de atelectasia (quadro clínico no qual a totalidade ou parte de um pulmão fica sem ar e entra em colapso) e prevenir outras complicações pós-operatórias, é imprescindível a remoção das secreções das vias aéreas e a distensão do tecido pulmonar. 

Por isso é necessário que faça parte do programa de fisioterapia a associação de exercícios de respiração profunda com desobstrução brônquica e mobilização precoce do paciente. Assim é possível observar resultados favoráveis na diminuição do tempo de internação hospitalar, assim como em complicações pós-operatórias, principalmente se o treinamento muscular for realizado antes da cirurgia. 

O treinamento fisioterápico (da musculatura inspiratória) no pré-operatório leva à redução das complicações pós cirúrgicas e do tempo de hospitalização, devido à melhora significativa da força após o treinamento e ao longo dos primeiros dias de pós-operatório. 

Assim, o treinamento fisioterápico pós-operatório pode melhorar a força muscular respiratória, volumes pulmonares, desempenho físico e dispneia. 

Quando a fonoaudiologia pode ser indicada?

Na clínica oncológica, um dos principais motivos para a solicitação da avaliação fonoaudiológica é a suspeita de disfagia orofaríngea, ou seja, alterações para mastigar e engolir os alimentos. Geralmente, essas alterações estão associadas a tumores da região oral, laringe e faringe, ou aos tumores cerebrais.

Uma avaliação criteriosa é realizada para que seja definido o grau da alteração e orientar, em conjunto com o nutricionista, a dieta mais adequada à situação atual do paciente. Caso o paciente com dificuldade para engolir alimentos não apresente condições para nutrição e hidratação por via oral de forma segura e plena, o fonoaudiólogo, em conjunto com equipe multidisciplinar, pode indicar uma via alternativa de alimentação.

O tratamento dos tumores de laringe poderá ser cirúrgico, por radioterapia e/ou quimioterapia associada ou exclusiva. O procedimento adotado dependerá de alguns fatores, tais como: tipo celular, grau de diferenciação, local e extensão do tumor, suas características macroscópicas, possível envolvimento ósseo e muscular, presença de metástases linfonodais, além do perfil socioeconômico e demográfico do doente. 

Também é importante levar em consideração a preservação da fala, da salivação, do mecanismo da deglutição, além das condições físicas, sociais e ocupacionais do doente. No caso do tratamento cirúrgico, pode haver ressecção total da laringe (laringectomia total) para tumores com estádio mais avançado (T3 e T4) ou, nos casos menos graves, retirada de apenas uma parte da laringe (laringectomia parcial).

Os procedimentos terapêuticos mais ou menos agressivos podem acarretar em dificuldades na mobilização cervical, disfagia e alterações no paladar e na voz, necessitando da intervenção do fonoaudiólogo junto à equipe médica. 

Neste sentido, o fonoaudiólogo é o profissional da equipe de saúde habilitado e responsável pela avaliação, pelo diagnóstico funcional e pela readaptação das funções de deglutição e voz de indivíduos acometidos por câncer da laringe.

Pessoas submetidas à laringectomia total, por exemplo, podem ser reabilitadas de três formas: voz esofágica, laringe eletrônica e próteses traqueosofágicas. 

Os que fizeram cirurgia associada à radioterapia e/ou quimioterapia exigem tanto a terapia da fala e da voz quanto da deglutição. Já os que utilizam somente radioterapia e/ou quimioterapia deverão receber terapia para disfagia e voz. 

Assim, em virtude da complexidade da situação e da necessidade de reabilitação do paciente, o fonoaudiólogo é o profissional mais capacitado para essa atuação.  

Como o psicólogo pode me ajudar?

O conceito de doença é extremamente amplo. Podemos falar dela em diversas perspectivas, mas é senso comum que quando o organismo adoece, naturalmente o psiquismo pode adoecer também. 

O desencadeamento da doença oncológica traz consigo uma série de medos, angústias, ansiedades, fantasias e alterações nas rotinas, e tudo isso é um impacto tanto para o paciente como para sua família.

A doença interrompe o curso natural da vida e promove uma eclosão de problemas naquilo que anteriormente parecia estar minimamente organizado. O trabalho é interrompido, os laços podem ser modificados, aquilo que não vinha tão bem na dinâmica familiar pode se potencializar. Também podem haver alterações corporais importantes, como perda de cabelos, amputação de membros e sequelas indesejáveis do tratamento.

Nesses casos, não é incomum encontrarmos quadros de depressão, ansiedade, fobias, stress pós-traumático, conflitos na dinâmica familiar, alterações na autoestima, dor sem causalidade orgânica, desencadeamento de surtos psicóticos etc. 

O trabalho psicológico passa pela escuta da representação simbólica que tudo isso tem para cada sujeito e seus familiares, para que a partir daí haja construção de um modo de enfrentamento possível para isso tudo.

O trabalho do psicólogo inserido numa equipe multidisciplinar favorece a comunicação com os profissionais envolvidos. Além disso, auxilia o sujeito e sua família a encontrar novas saídas para as problemáticas vivenciadas, o que pode promover melhorias no processo de adesão ao tratamento oncológico e na qualidade de vida.

Para isso, realizamos as seguintes atividades:

  • Triagem de avaliação psicológica inicial;
  • Assistência individual ou grupal conforme avaliação psicológica inicial ao paciente e/ou seus familiares; 
  • Preparo para realização de procedimentos invasivos ao longo do tratamento (cirurgias, alterações corporais como queda de cabelo, amputação de membros, radioterapia, quimioterapia, mudanças de etapas do tratamento, cuidados paliativos/especiais);
  • Reuniões multiprofissionais nos diferentes momentos do tratamento.

Por Dra. Adriana Garofolo - CRN: 10744

Referências

F.Kendall, P.AbreudP, PinhoaJ, Oliveira P.Bastosa. The role of physiotherapy in patients undergoing pulmonary surgery for lung cancer. A literature review. Revista Portuguesa de Pneumologia (English Edition). Volume 23, Issue 6, November–December 2017, Pages 343-351

Lopes, N., & Muner, L. (2020). ATUAÇÃO DO PSICÓLOGO NA EQUIPE MULTIDISCIPLINAR DE CUIDADOS PALIATIVOS COM PACIENTES ONCOLÓGICOS. Revista Cathedral, 2(4), 132-142.