segunda-feira, 19 de abril de 2021

Equilíbrio do microbioma intestinal e o paciente com câncer


A microbiota é o conjunto de microrganismos que povoam o trato gastrointestinal (TGI) humano e que, em condições normais, não causam doenças. 

O microbioma intestinal é o conjunto de microrganismos (bactérias, fungos, vírus) do intestino e sua relação com o nosso organismo. Trata-se de uma comunidade de micróbios que vivem em harmonia, mas que podem entrar em desequilíbrio, caso haja alguma alteração genética, ambiental ou do estado de saúde do indivíduo. 

As terapias anticâncer, especialmente a quimioterapia e a radioterapia abdominal e pélvica, predispõem pacientes com câncer a modificações importantes do trato gastrintestinal, e isso inclui o equilíbrio da microbiota do intestino (flora intestinal). Com isso, as infecções pelo trato gastrointestinal ganham maior proporção e aumentam o risco de infecções da corrente sanguínea. 

As lesões nos tecidos do trato digestório são chamadas de mucosites. A enterite e a enterocolite neutropênica são as consequências mais relevantes em relação ao TGI durante o tratamento que se relacionam com infecções da corrente sanguínea. 

As mucosites podem ocorrer em todo o TGI, desde a boca até o ânus. Como consequência, pode haver destruição da barreira intestinal, com ruptura da mucosa e a consequente inflamação causada pelas lesões. 

Essas lesões podem levar a vários tipos de desordens digestivas, tais como intolerância à lactose, síndromes de má absorção e diarreia, com grande risco para a ocorrência de infecções da corrente sanguínea, decorrentes da translocação bacteriana (passagem das bactérias do intestino para o sangue). 

A gravidade e extensão dessas alterações estão intimamente relacionadas ao perfil da microbiota (microrganismos) que habita o intestino. 

Importância da microbiota intestinal no paciente com câncer

A microbiota humana comensal é composta por bactérias que têm papel fundamental na homeostase (equilíbrio) corporal. Estão presentes em diversas localidades, dentre elas, no intestino, onde exercem um efeito protetor sobre sua integridade. 

Ao longo da vida, diferentes espécies habitam o intestino, mudando em decorrência de vários fatores, como idade, alimentação, meio ambiente, atividade física, uso de medicamentos, presença de doenças entre outros. A regulação da barreira intestinal é uma das funções bacterianas mais importantes, que ocorre por meio da modulação da expressão e distribuição de proteínas nesse local.

Interações dessas bactérias com receptores que funcionam como fatores de reconhecimento para macrófagos e outras células imunológicas garantem a ativação de uma sinalização, que assegura o desenvolvimento adequado da resposta imune inata. 

O reparo da mucosa e a proteção intestinal contra lesões são realizados pela ativação dessas vias, onde ocorre a regeneração do tecido e, portanto, a reparação das feridas.  Assim, para estimular a maturação do epitélio de maneira orquestrada, a presença e a composição da microbiota intestinal saudável são de fundamental importância. 

Portanto, a composição da microbiota intestinal interfere direta e indiretamente em todos esses fatores, contribuindo para a integridade intestinal. 

O desequilíbrio desses fatores desempenha papel importante nas alterações da permeabilidade intestinal, que pode levar à ruptura da barreira intestinal e maior vulnerabilidade para a invasão de microrganismos nocivos. 

Dessa forma, pode ocorrer translocação microbiana intestinal (passagem das bactérias do intestino para o sangue), devido ao aumento da permeabilidade e redução da imunidade local e sistêmica (do corpo todo).

Disbiose intestinal durante o tratamento do câncer

A disbiose intestinal é um desequilíbrio da microbiota intestinal bacteriana, com várias consequências nas funções do trato digestório, como: 

  • Redução na capacidade de digestão e absorção dos nutrientes; 
  • Produção de promotores carcinogênicos; 
  • Destruição da mucosa intestinal, levando à hipersensibilidade e ativação imunológica; 
  • Aumento da inflamação corporal crônica. 

Esses prejuízos são decorrentes de um desequilíbrio causado pela redução do número de bactérias comensais (benéficas) intestinais, com proliferação de microrganismos patogênicos.

Atualmente, existem diversas evidências de que o desequilíbrio do microbioma intestinal pode estar associado ao desenvolvimento de várias doenças, dentre elas, as degenerativas relacionadas ao sistema nervoso, como Parkinson e Alzheimer, doenças inflamatórias intestinais, síndrome do intestino irritável, doença celíaca, alergias alimentares, diabetes, doença cardiovascular e câncer. 

No contexto do tratamento oncológico, é comum os pacientes evoluírem com quadro de diarreia associada ao Clostridium dificilli. Alguns manejos, incluindo pré, probiótiocos e pósbióticos, mostraram redução dos episódios de diarreia por antibióticos e redução nas taxas de infecção. 

Embora o uso de probióticos tenha se mostrado seguro em uma variedade de cenários clínicos, em pacientes durante o tratamento antineoplásico, seu uso deve ser prescrito e monitorado por um profissional especialista. Isso ajuda a evitar efeitos adversos e potencializa os resultados da terapia.

Por Dra. Adriana Garófolo, especialista em Nutrição da Equipe Increasing - CRN: 10744