terça-feira, 23 de março de 2021

Sintomas urinários e endometriose


A endometriose tem sido cada vez mais diagnosticada devido à popularização de informações sobre seus principais sintomas: as cólicas e as dores nas relações sexuais. 

Nas últimas décadas, a disseminação dessa informação e a maior familiaridade de médicos e mulheres portadoras de endometriose com este tipo de sintoma contribuiu para que o diagnóstico passasse a ser mais ágil e preciso. Consequentemente, isso também possibilitou um tratamento mais precoce e assertivo. 

No entanto, a endometriose profunda – que é aquela com lesões que podem infiltrar os órgãos pélvicos com profundidades além de 5 mm e é sua forma mais grave – pode levar a uma gama de sintomas. 

Esses sinais podem ser bastante variados e clinicamente confusos, dentre eles, os sintomas do trato urinário inferior (bexiga e uretra).

Por falta de conhecimento, esses sinais são frequentemente negligenciados, seja por haver outros sintomas mais incômodos ou intensos que chamam mais a atenção (como, por exemplo, a dor pélvica), ou por não serem relacionados ao quadro de endometriose.

Sintomas urinários

Em outras situações, os sintomas urinários podem ser predominantes e levar à busca de urologistas ou uroginecologistas. Aliás, ao não investigarem outras questões relacionadas a endometriose, esses profissionais são incapazes de propor um tratamento satisfatório, por não abordarem a causa específica dos sintomas urinários.

As queixas urinárias mais comuns se relacionam a urgência, urgeincontinência, aumento de frequência urinária, sensação de retenção urinária, sensação de esvaziamento incompleto e urina entrecortada. 

Ou seja, há registros de sintomas de enchimento, assim como de esvaziamento da bexiga, os quais se relacionam com a localização das lesões de endometriose.

O local do trato urinário mais acometido pela endometriose é a bexiga, na qual os processos inflamatórios e cicatriciais/fibróticos podem comprometer sua elasticidade e capacidade de armazenamento de urina. 

Isso leva a uma diminuição da complacência (capacidade de acomodar a urina sem aumentar a pressão interna) e contribuindo para a redução da capacidade máxima de armazenamento da bexiga.

O acometimento por endometriose dos paramétrios, ligamentos que fixam o útero e colo uterino às paredes pélvicas, também pode causar sintomas urinários. 

Profundamente a estas estruturas, há a passagem de nervos do sistema nervoso involuntário (sistema nervoso autônomo) que controlam o enchimento da bexiga (sistema nervoso simpático – nervos hipogástricos/plexo hipogástrico inferior) e seu esvaziamento (sistema nervoso parassimpático – nervos esplâncnicos pélvicos). 

Os sintomas de obstrução são os mais frequentemente associados a endometriose de paramétrio por promover o estímulo do esfíncter interno da uretra, dificultando o esvaziamento vesical.

Estes sintomas podem existir decorrentes da endometriose ou podem se desenvolver ou se agravar após a manipulação cirúrgica necessária para o tratamento adequado desta doença. 

Abordagem adequada

As cirurgias radicais para endometriose podem induzir disfunção urinária em 2,4-17,5% das mulheres com lesões que comprometem os nervos autonômicos da pelve. 

Diante disso, em casos diagnóstico clínico ou por imagem de endometriose profunda, os sintomas urinários devem ser sempre clinicamente pesquisados, através de perguntas sobre frequência urinária diurna e noturna, urgência, quadros de perdas de urina e sensações relacionadas ao enchimento e esvaziamento da bexiga. 

Técnicas complementares como a realização de diário miccional e do estudo urodinâmico também devem fazer parte da investigação de dados objetivos sobre o funcionamento e medidas de pressões dos músculos da bexiga e uretra, sinais obstrutivos e eficácia do esvaziamento da bexiga.

A investigação e avaliação destes dados permitem a realização de um diagnóstico mais preciso sobre a localização da endometriose e de suas consequências funcionais. Consequentemente, isso leva a um planejamento mais adequado do tratamento cirúrgico radical, ao acompanhamento de possíveis sequelas pós-operatórias e à programação de reabilitação da função urinária.

A abordagem adequada da endometriose com sintomas urinários faz com que o tratamento seja sempre mais completo e melhor sucedido.

Por Dra. Augusta Morgado Ribeiro - CRM-SP:  144475

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